Em
nossa sociedade competitiva, tudo gira em torno do ter.
Não obstante, julgamos uns aos outros em função do ter.
Afinal, o ter é, ou pelo menos deveria ser, produto do
ser. Por este entendimento, é lógico imaginar que um
Analista de Tecnologia tenha um computador, assim como um relativo
“padrão” de vida que este o proporciona.
O
grande “bicho papão” do homem moderno é o medo de não
ter ou de perder o que julga ter. Mas o
que pouca gente sabe é que o ter é inerente ao ser
e o contrário não é possível, a menos que se disponha de grande
sacrifício ou sofrimento.
Você
pode roubar uma obra de um grande artista, vendê-la ou publicá-la
como sendo sua e ganhar uma considerável soma em dinheiro. Todavia,
a menos que possa continuar a usurpar do trabalho deste, deves
consumir grande parte de seu tempo ocupando-se de manter a
considerável soma que conquistastes. E isto pode levá-lo a se tornar um ser
violento, estressado e competitivo. Afinal, você agora precisa
manter o que conseguiu pois não sabe quando e se vais ter outra
oportunidade semelhante de conquistar tal quantia em dinheiro.
Mas
agora, tomemos o ponto de vista do artista. Ele teve uma de suas
obras roubada! E a obra fez grande sucesso no nome de outrem.
Conquanto, isto não é um grande problema para ele, haja visto que a
criatividade está em seu ser. Logo, outras tantas obras poderão ser
compostas e publicadas. Ora, o artista não precisa temer a falta
pois o fato de ser artista lhe confere o talento para
criar e recriar. Ao final, o artista diria: “De onde saiu esta,
muitas outras ainda estão por vir...”.
Perceba
que, tantas vezes quantas quiser, o artista pode obter de si mesmo o
produto que gera provimento ao seu sustento. Já o ladrão
infortúnio, terá que se sacrificar e competir pelo resto da vida
para ter algo que não compete com o seu ser.
Agora,
observe à sua volta. Observe as pessoas. Miseráveis,
sacrificando-se dia após dia em atividades que não lhe são
agradáveis ou mesmo fáceis, para simplesmente poder ter.
Pessoas muito bem vestidas, exibindo seus trajes de grife e carros
cada vez mais arrojados. Um ignorante incauto poderia dizer: “Nossa!
Ele deve ser muito feliz pois pode gozar de caras e belas roupas e um
ótimo veículo!” … mas será mesmo?
Manter
um padrão de vida que não reflete sua condição intelectual
implica diretamente em sofrer ou sacrificar-se. Enquanto o artista se
diverte no trabalho de criação de sua nova obra, que lhe renderá
milhões, o medíocre sofre na árdua e desgastante atividade
proletária para poder ter e, principalmente, mostrar
aos outros o que tem para que estes possam concernir o
ser em função do ter.
Quanto
mais se “tem” sem “ser”, mais se
sofre para continuar a “ter”.
Por
tanto, seria muito medíocre da parte de um médico ou engenheiro
negligenciar o conhecimento de botânica ou filosofia por já ter seu
medíocre título curricular. Este ultimo apenas lhe confere o
conhecimento necessário à realização de uma atividade padrão e
já consolidada. Nada mais...
Neste
contexto, posso afirmar que um médico, ou mesmo um engenheiro, teria
muito mais sucesso em sua presteza profissional se somar algum
conhecimento de filosofia, psicologia ou mesmo de botânica. Ora, não
menospreze ou vá pensando que a botânica nada tem a ensinar a um
engenheiro, pois irá se surpreender.
É
fato que o homem moderno já pode sim sair pelas ruas com um rótulo,
similar aos dos produtos que encontramos nos armazéns. Afinal, se um
homem se diz médico, então ele é só e simplesmente um médico, e
ponto final.
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