quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O “ter” sem “ser”

Em nossa sociedade competitiva, tudo gira em torno do ter. Não obstante, julgamos uns aos outros em função do ter. Afinal, o ter é, ou pelo menos deveria ser, produto do ser. Por este entendimento, é lógico imaginar que um Analista de Tecnologia tenha um computador, assim como um relativo “padrão” de vida que este o proporciona.
O grande “bicho papão” do homem moderno é o medo de não ter ou de perder o que julga ter. Mas o que pouca gente sabe é que o ter é inerente ao ser e o contrário não é possível, a menos que se disponha de grande sacrifício ou sofrimento.
Você pode roubar uma obra de um grande artista, vendê-la ou publicá-la como sendo sua e ganhar uma considerável soma em dinheiro. Todavia, a menos que possa continuar a usurpar do trabalho deste, deves consumir grande parte de seu tempo ocupando-se de manter a considerável soma que conquistastes. E isto pode levá-lo a se tornar um ser violento, estressado e competitivo. Afinal, você agora precisa manter o que conseguiu pois não sabe quando e se vais ter outra oportunidade semelhante de conquistar tal quantia em dinheiro.
Mas agora, tomemos o ponto de vista do artista. Ele teve uma de suas obras roubada! E a obra fez grande sucesso no nome de outrem. Conquanto, isto não é um grande problema para ele, haja visto que a criatividade está em seu ser. Logo, outras tantas obras poderão ser compostas e publicadas. Ora, o artista não precisa temer a falta pois o fato de ser artista lhe confere o talento para criar e recriar. Ao final, o artista diria: “De onde saiu esta, muitas outras ainda estão por vir...”.
Perceba que, tantas vezes quantas quiser, o artista pode obter de si mesmo o produto que gera provimento ao seu sustento. Já o ladrão infortúnio, terá que se sacrificar e competir pelo resto da vida para ter algo que não compete com o seu ser.
Agora, observe à sua volta. Observe as pessoas. Miseráveis, sacrificando-se dia após dia em atividades que não lhe são agradáveis ou mesmo fáceis, para simplesmente poder ter. Pessoas muito bem vestidas, exibindo seus trajes de grife e carros cada vez mais arrojados. Um ignorante incauto poderia dizer: “Nossa! Ele deve ser muito feliz pois pode gozar de caras e belas roupas e um ótimo veículo!” … mas será mesmo?
Manter um padrão de vida que não reflete sua condição intelectual implica diretamente em sofrer ou sacrificar-se. Enquanto o artista se diverte no trabalho de criação de sua nova obra, que lhe renderá milhões, o medíocre sofre na árdua e desgastante atividade proletária para poder ter e, principalmente, mostrar aos outros o que tem para que estes possam concernir o ser em função do ter.
Quanto mais se “tem” sem “ser”, mais se sofre para continuar a “ter”.
Por tanto, seria muito medíocre da parte de um médico ou engenheiro negligenciar o conhecimento de botânica ou filosofia por já ter seu medíocre título curricular. Este ultimo apenas lhe confere o conhecimento necessário à realização de uma atividade padrão e já consolidada. Nada mais...
Neste contexto, posso afirmar que um médico, ou mesmo um engenheiro, teria muito mais sucesso em sua presteza profissional se somar algum conhecimento de filosofia, psicologia ou mesmo de botânica. Ora, não menospreze ou vá pensando que a botânica nada tem a ensinar a um engenheiro, pois irá se surpreender.

É fato que o homem moderno já pode sim sair pelas ruas com um rótulo, similar aos dos produtos que encontramos nos armazéns. Afinal, se um homem se diz médico, então ele é só e simplesmente um médico, e ponto final.

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